I Ching E Jung

Astrologia, Numerologia, Tarô, Runas
Dragão - Arte Digital: Henrique Vieira Filho Devido a um título de livro, muitos colegas passaram a crer que o célebre psicanalista Carl Gustav Jung era um grande utilizador do Tarô. Bem que poderia ter sido, mas historicamente, a sua admiração pessoal recaiu sobre outra forma de autoconhecimento: o I Ching. Além destas duas ferramentas, igualmente a Astrologia, as Runas, os Búzios e demais abordagens similares, podem ser explicadas e compreendidas mediante alguns conceitos básicos das teorias analíticas junguianas: arquétipo, símbolo e sincronicidade.

Os dois primeiros, são opostos complementares e inseparáveis; o arquétipo é o "molde", o conceito, a expressão de um desejo coletivo, universal e atemporal, enquanto que o símbolo é forjado sobre aquele "molde", é a individualização do anseio coletivo, adaptada ao tempo e cultura em que se manifesta.

Por exemplo: existe uma idéia universal, comum à toda humanidade, do que vem a ser um Ancião Sábio; tal conceito é arquetípico, manifestando-se do inconsciente coletivo de todas as culturas, em todos os tempos. Já a "materialização" deste molde, pode ser encontrada nas mais diversas formas, povos e períodos de tempo. Citando dois: Matusalém, das tradições judaícas e cristãs e Lao Tsé, da milenar cultura chinesa. Outro anseio universal: o Herói.

Todo indivíduo nasce com o conhecimento inconsciente do que caracteriza este atributo. No decorrer dos tempos e espaços, vários SÍMBOLOS encarnaram este ARQUÉTIPO, desde o mais antigo já descrito, Gilgamesh, da Suméria, passando pelo (até hoje...) popular Eracles/Hércules, da mitologia grego-romana, até o pouco conhecido no ocidente, Liu Pei, da China...

Todos diferentes, em certos aspectos, porém, "iguais" quanto ao "molde" arquetípico de que foram forjados... Dentro desta conceituação, as técnicas citadas no início deste artigo podem ser elucidadas. A Astrologia ocidental trabalha com 12 símbolos, que representam situações arquetípicas, razão pela qual, inconscientemente, nos identificamos com relativa familiaridade com suas descrições e atributos.

O Tarô trabalha sobre 22 (arcanos maiores: o louco, o eremita, a torre, etc... ), podendo se desmembrar em outros 56 (arcanos menores: reis, damas, valetes, etc...) momentos universalmente típicos pelos quais todos passamos em algum ponto de nossas vidas. Provavelmente o mais antigo de todos, o I Ching, espelha com 64 símbolos (hexagramas...), uma diversidade de situações arquetípicas com as quais certamente nos deparamos ao longo da vida e repetidamente.

Neste contexto, todos os instrumentos acima, por si só, funcionam como espelhos de nós mesmos, proporcionado acesso às informações do inconsciente coletivo do qual somos parte. Ou seja, são milenares fontes de autoconhecimento. Outrossim, além de objetos de estudo continuado, existe ampla tradição de sua utilização como fonte de orientação e de inspiração para momentos particulares, específicos de nossas vidas: trata-se do aspecto oracular, divinatório. Claro que as respostas obtidas, como tudo que se origina do inconsciente, nunca devem ser analisadas literalmente, pois sua linguagem é a mesma dos sonhos: simbólica... Assim sendo, por exemplo, a carta do Tarô que simboliza A Morte, obviamente não se trata de falecimento de alguém, mas sim, de TRANSFORMAÇÃO, de passagem de um momento para outro, assim como poderíamos dizer, metaforicamente, que a noite "morre" para "nascer" o dia, e vice-versa... Neste linha de aplicação, devemos bem conhecer outro termo junguiano: SINCRONICIDADE. Trata-se da percepção pessoal e emocional, de um observador, que identifica uma relação especial entre eventos distintos entre si.

Por exemplo: uma pessoa angustiada abre uma página de um livro, "ao acaso" e se depara com um texto que descreve como se sente e o que precisava saber para aquele exato momento. Obviamente, não existe uma relação tipo "causa e efeito" (o autor não escreveu aquele texto para aquela pessoa especificamente...), mas sim, de uma coincidência significativa, pois quem a vivenciou experimenta uma sensação interior de que tudo tem uma ligação e que ela faz parte de um "plano maior". Existe uma tendência inata de nos "espelharmos" em tudo que vemos.

Reconhecemos características (positivas e/ou negativas...) em pessoas, objetos, SÍMBOLOS, que nada mais são do que projeções de aspectos nossos, sejam conscientes ou inconscientes. Assim sendo, qualquer carta do Tarô, qualquer hexagrama do I Ching, qualquer Runa que observarmos, ou qualquer outro objeto que focarmos, certamente nos despertará lembranças, idéias e emoções, em especial, no que se refere a símbolos que refletem arquétipos, ou seja, estão arraigados profundamente no inconsciente de todos nós. Ou seja, existe disposição para tal, certamente que a observação ao "acaso" de qualquer símbolo nos conduzirá a informações sobre nós mesmos. O que realmente surpreende o racional é a SINCRONICIDADE: o usuário habitual destes métodos acabará duvidando da existência do "acaso", pois na maior parte das vezes, os símbolos "sorteados" são absolutamente "coincidentes" com o tema objeto da consulta. Experienciei as mais diversas formas de "sorteio" destes símbolos, desde os mais tradicionais, como por exemplo, varetas de bambus e moedas para resultar em hexagramas do I Ching, até o uso de softwares de computador, e a sincronicidade sempre se fez evidente.

Claro que, em tese, se o observador perceber maior afinidade com este ou aquele método de "jogo", deve utilizar, pois será um fator estimulante a se somar, criando uma situação propícia. Por exemplo, é possível que muitos de nós se concentrem melhor e relaxem o racional de "jogarem" o I Ching via o demorado método das varetas, enquanto que outros, simplesmente ficam nervosos com a lentidão e se sintam mais confortáveis com a rapidez de um programa de computador e certamente teremos aqueles que preferem um meio-termo, utilizando-se de moedas como instrumento.

Da mesma forma, dentre as mais diversas opções de técnicas de sincronicidade, uma ou mais opções nos parecerão mais familiares, do que outras... Alguns sentirão mais afinidade e facilidade em observar a si mesmo nas belas imagens das cartas do Tarô; outros, sentirão que farão uma boa leitura do alfabeto nórdico grafado nas Runas, enquanto que muitos se identificarão com a escrita em código binário utilizada no I Ching (ver artigo I Ching - O Software Do EU ). Mesmo que nunca tenhamos estudado sobre o tema, as imagens que representam graficamente cada símbolo, por si, já nos despertam reações, pensamentos, emoções, pois são arquetípicas, comuns ao inconsciente de todos. Já o aprofundamento via cursos e literatura, por um lado, facilita a interpretação e, por outro, implica em maior interferência do racional na análise dos símbolos, o que pode se tornar uma dificuldade a mais para se obter a espontaneidade, e "ausência de censura", necessárias para o aflorar do material inconsciente.

Especificamente sobre o I Ching, cujos hexagramas - composição de seis linhas sobrepostas, ora yin (linha "quebrada"), ora yang (linha "contínua"), combinadas entre si, via "sorteio" - compõem o o alfabeto mais antigo já conhecido, e era de leitura direta aos seus usuários, tal qual hoje lemos as palavras deste texto... Porém, no decorrer dos milênios, seu entendimento obscureceu-se, necessitando de "traduções" de vários estudiosos, alguns até personagens históricos, como o filósofo Confúcio, cujas análisesl, modernamente, também necessitaram de interpretação, destacando-se a realizada pelo sinólogo Richard Wilhelm, que apresentou sua versão do I Ching ao ocidente, no clássico livro prefaciado por nada menos que Jung. Verdade seja dita, as interpretações escritas sobre cada hexagrama, em leitura inicial, parecem ao ocidental, tão obscuras quanto os próprios símbolos gráficos...

Outrossim, alguns fios de meada podem ser identificados. Confúcio utiliza analogias com figuras familiares (pai, mãe, filhos, filhas e suas atribuições pré-concebidas...) e as relações com a sociedade (governante, sábio, servo...), que com relativa facilidade transpomos para o nosso dia-a-dia moderno. Já muitos dos textos interpretativos ancestrais, atribuídos a personagens lendários, estabelecem analogias com elementos da natureza (montanhas, nuvens, rios, terras, animais...) e algumas figuras mitológicas (como o Dragão que ilustra este artigo...), criando imagens e histórias as quais, de forma lúdica, evocam nosso entendimento e criam espelhamento com fatos de nossa vida, "falando a mesma língua" do inconsciente, ou seja, a simbólica.

Enfim, utilizar-se destes instrumentos milenares é um ótimo exercício de meditação e autoconhecimento, um espelho lúdico de acesso ao inconsciente e que, com algumas considerações, igualmente pode ser aplicado como mais uma ferramenta de interação entre Cliente e o profissional, em sua relação terapêutica.

Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.

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