Fim dos Fins Do Mundo ?

Psicanálise

Fim Do Mundo - Modelo: Polly - Arte Digital: Henrique Vieira Filho Neste artigo, vamos abstrair dos aspectos religiosos e científicos e abordar a curiosidade natural que o tema “fim do mundo” evoca. Existe, ainda, abordagens psicoanálíticas que podem explicar o interesse acima da média que esta pauta desperta em muitos indivíduos.

É inata na humanidade, a idéia de que uma onipotência intervenha em momentos de crise, literalmente destruindo a ordem estabelecida, abrindo a oportunidade de grandes renovações.

Até mesmo a ciência moderna apresentou uma nova roupagem a este arquético, substituindo a “criação divina “ pelo “big bang” e o “apocalipse” pelo “big crush”, assemelhando-se à simbologia indiana, que retrata como uma respiração de Brahma, onde o universo termina, para recomeçar em sequência, renovado. Trata-se da eterna busca da humanidade em elaborar explicações para sua origem e destino.

Pertinente pontuar que todas as culturas em que o tema “fim do mundo” é abordado, tais “apocalipses” igualmente anunciam novos recomeços, mantendo o conceito de uma “imortalidade” relativa e a promessa de melhores tempos.

O dilúvio, por exemplo, é um tema recorrente na mitologia de vários povos. A mais antiga descrição de uma inundação mundial encontra-se gravada em placas de argila, da antiga Suméria, relatando a saga de Ziusudra, que construiu sua arca e, assim sobreviveu ao desastre que destruiu as cinco grandes cidades desta civilização.

Na Mitologia grega-romana, Zeus, considerando que os homens da Idade do Bronze eram indignos, provoca uma inundação para acabar com todos, exceto Deucalião e Pirra, que escaparam ao construir uma arca.

Na cultura Maia, o Grande Pai (o criador) e a Grande Mãe (a fazedora de formas), geraram a vida, culminando na criação da humanidade, que foi feita primeiramente de barro, sendo destruídos e refeitos posteriormente de madeira, que por sua vez foram dizimados por um dilúvio, dando oportunidade ao nascimento da humanidade atual, feita de milho e sangue, a qual será reciclada novamente, em datação que corresponde aos nossos tempos, alardeada inicialmente pelos estudiosos como sendo o ano 2000 e, como “nada” aconteceu, revisada para 2012...

Pertinente observar o narcisismo de nossa cultura, que acredita que o universo utiliza o mesmo calendário temporal que nós... Daí o imaginário que os números “redondos” (ano 1000, ano 2000...) signifiquem algo especial na ordem cósmica, possivelmente porque evoquem a idéia de um círculo que se fecha, terminando um ciclo, até mesmo, um “fim do mundo”... Interessante que a nova data “revisada” para o apocalipse Maia nem sequer se enquadra no esteriótipo de “número redondo” e talvez seja este mais um fator a desinteressar a atenção da mídia, se compararmos ao ano 2000, que também implicava no final do Século 20 e término do milênio...

A título de observação, outros povos contemporâneos possuem calendários distintos ao adotado pelos cristãos e pelo comércio mundial. Por exemplos: a datação judáica tem como início o ano de 3761 a.C., enquanto que a chinesa é contada a partir de 2637 a.C e a muçulmana, inicia em  622 d.C.

Independente de religião, visto que nenhuma das largamente estabelecidas prega um apocalipse datado e iminente, encontramos indivíduos considerando seriamente o fim como próximo. Em termos emocionais, o mais provável é que a pessoa esteja com suas referências abaladas, desesperançado em uma crítica absoluta, onde nada está bom e a única saída que vislumbra é uma intervenção capaz de lhe propiciar um novo começo.

"...
O fim do mundo é a projeção dessa catástrofe interna; seu mundo subjetivo chegou ao fim, desde o retraimento de seu amor por ele." (FREUD, 1911/1996, p.77, trecho de análise do caso Schreber, sobre a gênese da megalomania).
..."

Cabe à Terapia Holística incluir esta pauta em seu repertório. Afinal, o que ocorre na vida destes Clientes, que somente a destruição total lhes parece a solução ? Como implementar este recomeço por si mesmo, sem precisar de uma intervenção onipotente ( figura paterna ?...) externa ?

E, mesmo em casos onde a idéia de “fim do mundo” não esteja em tamanho grau de relevância, é um bom tema para a realização de uma vivência, um psicodrama, um exercício de imaginação, onde o Cliente seja instigado a “criar” um novo mundo, do “zero” e como seria, na vida real, implementar essa metamorfose.

Afinal, como bem dizia o escritor Richard Bach: “Aquilo a que a lagarta chama fim do mundo, o homem chama borboleta”.

 

 

Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.

contato@sinte.com.br

(11) 3171-1913

 

Ana Luiza Iughetti Feres - Terapeuta Holística - CRT 42969

Destaques da Edição