A Psicanálise E As Datas Comemorativas

Psicanálise

Freud Festivo - Arte Digital: Henrique Vieira Filho Dia dos Namorados, Dia das Mães, Dia das Crianças, Natal...

Uma vasta gama de datas comemorativas que são destacadas insistentemente pelos meios de comunicação e que podem catalizar emoções, lembranças, desejos, frustações, razão pela qual, devem ser levadas a sério na Terapia.

No Artigo Calendários, Deuses E O Nexo Temporal, tive a oportunidade de pontuar que:

“...

A humanidade desenvolveu CALENDÁRIOS como uma tentativa de compreender, prever e até conquistar o TEMPO e, assim, acalmar boa parte de nossos temores quanto a este conceito que parece fluir em constante fuga, sendo a distância entre a causa e o efeito de tudo que presenciamos. Estabelecer e seguir um calendário é adquirir a sensação de segurança, de integrar-se ao ritmo do Universo e esta iniciativa é milenar e comum a todas as culturas.

…”


Além dos sistemas de medição da passagem do tempo, seja lunar ou solar, adotado pelas mais variadas culturas seculares, o indivíduo comum era alertado pelas evidências da natureza, quanto à chegada, por exemplos, da primavera, do inverno, enfim, momentos de mudanças, cuja ansiedade era aplacada com rituais religiosos.

Nos dias de hoje, perdeu-se boa parte da percepção da passagem dos ciclos pela observação da natureza; porém, os meios de comunicação suprem esta tarefa (quem sabe, em demasia...) de lembrar a todos os rituais de cada período, geralmente por razões comerciais/mercantilistas e não mais por motivações religiosas.

 

Para ilustrar: o mês de Junho, no hemisfério norte, é o período do solstício de verão e, como o nome sugere, na mitologia grega-romana, era dedicado à deusa Juno (Hera...), em especial ao seu aspecto de defensora das relações amorosas, casamentos e fidelidade. Com o advento da igreja católica, em sua estratégia de incorporar os cultos já existentes, versando-os aos seus interesses, os atributos da deusa Juno foram distribuídos a vários santos “casamenteiros”: sendo São João e Santo Antônio, os mais populares no Brasil e celebrados neste mesmo período. Tamanha é a popularidade destes ritos em nosso país, que, ao “importarem” a data comemorativa do Dia Dos Namorados, alteraram a data para coincidir com a véspera da homenagem a Santo Antônio. Este feito é atribuído ao comerciante e publicitário João Dória, que investiu na idéia por 10 anos seguidos, antes de sua consagração na sociedade brasileira.

 

Em muito países, o Dia dos Namorados (Valentine's Day...) é em fevereiro, devido à história do bispo Valentino, o qual, realizava casamentos na clandestinidade, contrariando a proibição do imperador romano Cláudio II, tendo sido martirizado pela desobediência. Como este santo não goza da mesma popularidade em nossa terras (a própria igreja católica, desde 1969, não mais o reverencia...), os idealizadores optaram por focar o marketing na imagem de Santo Antônio.

 

A interferência dos meios de comunicação também pesa na história do chamado Dia das Mães. Em todas as culturas antigas, a maternidade era celebrada nos ritos da Primavera, como era o caso da deusa Rhea, esposa de Cronus e mãe de Zeus. No cristianismo, associou-se à imagem de Maria. Na modernidade, pesou a história da americana Anna Jarvis, que organizou com grupo de amigas, homenagem à própria mãe falecida, sensibilizando a sociedade a tal ponto que, em 1914, o presidente formalizou a data de 9 de maio para todo o país. Por influência americana, cerca de 40 países adotaram a idéia; no Brasil, foi introduzida pela Associação Cristã de Moços (ACM) em 1918 e, em 1932, foi oficializada pelo presidente Getúlio Vargas, como sendo o 2o domingo de maio.

 

Sobre o Natal, o assunto foi tema do Artigo: As Tradições Xamânicas E Sua Incorporação À Mitologia Do "Papai Noel" e o o Ano Novo, em Obrigação De Ser Feliz vs Angústia de Fim De Ano e, até mesmo o Carnaval, em Nudez: Sagrada e Profana.

 

Seja lembrados pela Natureza, seja pelos veículos de comunicação (especialmente estes, nos dias de hoje...), fato é que sentimentos e desejos são despertos, estimulados pelas datas comemorativas.

 

No citado texto “Obrigação de Ser Feliz”, tecemos considerações sobre o efeito das propagandas que, praticamente “exigem” felicidade de todos, mesmo que não seja este o momento do indivíduo e o quanto isto pode induzir a mascarar os sentimentos.

 

O mesmo poder de “cobrança” pode ser acionado nas demais datas comemorativas. Toda a mídia expondo casais felizes e sensuais no Dia dos Namorados pode ampliar a frustração de quem não goza destes privilégios, ou aumentar a auto-ilusão naqueles que não estão em condições de analisar profundamente a relação em que vivem.... Publicidades do Dia das Mães chegam a (ab)usar até do sentimento de culpa, ressaltando o quanto cada um deve à pessoa que lhes deu a própria vida e que o presente deve ter valor proporcional a tamanha dádiva impagável... E quanto àqueles que perderam estes entes queridos, sendo relembrados de sua dor a cada capa de revista lida, a cada comercial na televisão, ou nas rádios...

 

Enfim, como profissionais da Terapia Holística, devemos conhecer as datas comemorativas, bem como suas origens e o quanto podem influenciar o momento de nossos Clientes, para que prestemos ainda mais atenção e assistência quanto aos temas reforçadamente lembrados nestes períodos.

 

Henrique Vieira Filho

Henrique Vieira Filho - Terapeuta Holístico - CRT 21001, é autor de diversos livros da profissão, ministra aulas na CEATH - Comunidade de Estudos Avançados em Terapia Holística.

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